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Projeto possibilita vivência em Libras na universidade

Após enfrentar barreira de comunicação por ser o único aluno surdo da turma, acadêmico se uniu à instituição de ensino para iniciar projeto piloto e ensinar os próprios colegas

© by Ana Paula Abrão

Hoje professor da Libras para seus colegas da universidade, o acadêmico da licenciatura em Geografia da PUC Goiás Felipe Neves Marques, 23, teve a primeira oportunidade de aprender a Língua Brasileira de Sinais aos 16 anos, quando ingressou em uma escola pública. Todas as quartas-feiras à tarde, mais de 50 graduandos em Geografia, Letras, Pedagogia se reúnem em uma das salas da Escola de Formação de Professores e Humanidades, onde os cursos estão instalados, para as aulas práticas guiadas por Felipe e sua intérprete na universidade, Pollyane Rodrigues. Na última aula, no dia 26, a data coincidiu com o Dia Nacional do Surdo, oficializado no Brasil em 2008.

Quem vê o jovem todo sorridente ao assumir a turma e interagir com facilidade com os colegas mal imagina que ele se sentia acuado pela barreira da comunicação com eles. A oportunidade de estar na linha de frente do projeto piloto que, na universidade foi planejado pela coordenação institucional do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) em conjunto com a coordenação do curso de Geografia, após o rapaz ser aprovado na seleção do programa, serviu não só para que ele iniciasse na docência, como todos os outros 30 colegas de Pibid, mas para que a barreira cruel entre ouvintes e surdos fosse derrubada a cada aula.

“Eu tenho um sentimento de profunda felicidade, porque, às vezes, tem um monte de gente ouvinte [no dia a dia] e eu não consigo entender, mas hoje o que acontece é que todo mundo tem me procurado, de outros cursos também”, diz ele, sobre a demanda que surgiu após os colegas descobrirem que ele estaria à frente do projeto. “Eu paro nos corredores, ensino, já perdi até aula”, brinca.

A disposição dos colegas para o aprendizado, motivada também pela curiosidade, tem na empatia, provavelmente, sua maior base. Para a coordenadora institucional do Pibid para os cursos de Geografia e História Oyana Rodrigues, o projeto e toda a força de adesão surgem a partir do senso coletivo, aguçado nos cursos de formação de professores. “Esse exercício da empatia que é o mais interessante, porque a técnica você pode adquirir em outro lugar. Agora, você se colocar no outro, prestar atenção no outro para estar junto, reconhecendo suas potencialidades, não achando que ele é tadinho, é o grande diferencial. Ele não é tadinho, é apenas diferente”, afirma a professora.

Questão de empatia

O projeto, que é uma das atividades obrigatórias aos 30 acadêmicos de Geografia que integram o Pibid, teve suas vagas abertas para qualquer pessoa que se interessasse na questão. Como resultado, dezenas de colegas de turma do Felipe e colegas de outros cursos se interessaram na oportunidade de aproximação. A turma, hoje, passa dos 50 alunos. “Eu fiquei surpresa, mas muito feliz. Essa presença dos meninos mostra também o interesse da pessoa enquanto ser humano, sabe?”, lembra a intérprete Pollyane Rodrigues, que assume a turma ao lado do acadêmico e que o acompanha em seu dia a dia na universidade, inclusive nesta entrevista.

Para a Quarta com Libras, como foi chamado o projeto, a intenção é que a comunicação seja estimulada, mas que seu aprendizado não seja limitado às aulas do semestre. “Não dá pra ensinar a língua em tão pouco tempo. A universidade tem professores que ensinam a Libras, mas é um outro foco, então essa é mais uma conversação mesmo, para os meninos conseguirem bater papo, conversar coisa à toa, não só coisas da faculdade”, explica a intérprete e professora.

Essa presença dos meninos mostra também o interesse da pessoa enquanto ser humano, sabe?

Apesar de estar no início, a ação já tem resultados. Colega de turma, Stephany Lopes, 21, conta que desde o início, se motivou a integrar o curso por querer falar com o Felipe. Ela conta que até situações simples como esbarrões a frustraram, por não conseguir pedir desculpas. “É tão ruim você entrar em um lugar e ninguém conversar com você. Eu sentia ele muito excluído e, na Geografia, a gente é muito unido. Então isso era muito contra o que nós acreditamos”, relata. O incômodo também motivou o colega de turma Rogério de Freitas, 41. “Ele sempre foi um menino alegre, preocupado em aprender, em se dedicar, mas não tinha essa ligação com os colegas igual nós temos. Hoje mesmo, durante a aula, ele sorriu muito mais do que nesses dois períodos que estamos juntos”, confessa.

A motivação inicial dos colegas deu lugar a uma questão maior, no entanto. A partir da iniciativa de quebrar a barreira da comunicação com o colega, os futuros professores entenderam que aquilo, na verdade, se tratava de algo muito maior. “Eu quero continuar estudando, aprendendo, porque eu não quero que o meu estudante tenha esse tipo de barreira. Eu quero quebrar esse muro que pode existir entre o meu aluno e eu”, afirma Stephany.

Educando para o protagonismo

Foto: Ana Paula Abrão

Foi por entrar em uma escola onde a política de inclusão estava mais avançada que o acadêmico Felipe Neves, 23, viu na Libras uma oportunidade de emancipação. Hoje, escolas e universidades possuem a determinação legal para oferecerem a alunos com diferenças físicas ou cognitivas o apoio pedagógico necessário para o aprendizado. Na PUC Goiás, 26 alunos de graduação contam com surdez ou alguma deficiência auditiva e contam com o apoio e acompanhamento do Programa de Acessibilidade. “Eles são avaliados da mesma forma que os alunos ouvintes, mas a correção é diferente, porque a escrita do surdo é muito diferente, porque ele não tem o verbo flexionado, por exemplo, então sempre orientamos os professores”, explica a coordenadora do programa, professora Marília Rabelo.

Agora que assumiu a função de professor voluntário, Felipe está fazendo cursos para aperfeiçoar o vocabulário em Libras e em português. As possibilidades que surgiram desde que começou a aprender a língua de sinais são descritas pelo jovem como parte fundamental do seu processo de formação cidadã. “Antes eu me sentia completamente ignorante do mundo, eu não tinha vida”, confessa. Hoje, como professor, quer se graduar para ser uma referência no ensino da geografia. “Os surdos têm muita dificuldade de aprender essas disciplinas específicas”, explica, ao comentar a existência de um projeto de escola bilíngue, onde possivelmente irá atuar. “Mas eu pretendo também dar aula em outras escolas, porque a ideia é que a Libras se dissemine e eu consiga”.

“Meu sonho é que a gente alcance igualdade e eu acredito que isso será sim possível. Já pensou um médico surdo?”

Com o avanço de políticas públicas para inclusão no Brasil, o desejo do jovem para a disseminação da Libras é algo que deve estar ocorrer nas próximas décadas. A pauta, claro, vai depender da conscientização de surdos e ouvintes para por fim à espiral de exclusão das pessoas com deficiência no país. Ouvintes que desejem aprender a comunicação básica na Libras podem contar com opções como o curso de extensão oferecido pela PUC Goiás ou por cursos da Associação de Surdos de Goiânia. A tendência é que mais opções, como o projeto piloto do curso de Geografia, surjam, para sensibilizar a população brasileira para o aprendizado da segunda língua oficial do país. “Meu sonho é que a gente alcance igualdade e eu acredito que isso será sim possível. Já pensou um médico surdo?”.